Paul Simon e o Estado de Graça

Paul Simon: Under African Skies, um documentário sobre o acontecimento musical e cultural que foi Graceland, estreou no Festival de Sundance. O autor é Joe Berlinger, vencedor de dois Emmys e um Peabody Award. Seguiu-se o “director’s cut” do filme e a reedição do álbum. Controverso, a ponto de despoletar a violência e até o assassínio de um dos músicos, Graceland quebrou fronteiras presumivelmente estanques.

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O documentário, cuja estreia foi bastante ansiada (ainda que não seja o primeiro sobre o álbum), aborda a criação e a influência do inovador disco de Paul Simon, naquele que será um ano comemorativo desta proeza. O filme será exibido noutros festivais internacionais e surgirá nas salas de cinema. Joe Berlinger é o autor de Brother’s Keeper, Metallica: Some Kind of Monster e da trilogia West Memphis Three (com Bruce Sinofsky).

O realizador Joe Berlinger e Paul Simon.
O realizador Joe Berlinger e Paul Simon.

25 anos depois, Paul Simon regressa à África do Sul, e revive a criação do álbum. Editado em 1986, vendeu 14 milhões de cópias em todo o mundo. Venceu o Grammy por Melhor Álbum e, no ano seguinte, o de Melhor Canção, algo sem precedentes. Os seus três singles foram um sucesso e Paul Simon promoveu o álbum na estrada durante cinco anos, cantando com a lendária Miriam Makeba e os Ladysmith Black Mambazo, entre outros.

paul simon under african skies (6)Under African Skies inclui entrevistas com ativistas anti-apartheid e nomes como Quincy Jones, Harry Belafonte, Paul McCartney, David Byrne e Peter Gabriel. Este último, afirma: “Antes de Graceland, a música da África do Sul era praticamente desconhecida fora do país, só uma minoria de fãs de world music a conheciam.” Joe Strummer, dos The Clash, comentou:

“Não gosto que pessoas que não sejam adolescentes gravem discos. Os adolescentes fazem os melhores discos. Exceto Paul Simon. Exceto Graceland. Ele atingiu um patamar novo ali, mas escreve para as pessoas da sua idade. Graceland é algo de novo.”

RAÍZES

Apesar do título remeter para um “estado de graça”, mais do que para a famosa mansão de Elvis – coincidência que só lhe ocorreu depois –, o álbum foi despoletado por uma fase má. Hearts and Bones, de 1983, foi o primeiro projeto de Paul Simon que fracassou comercialmente, embora hoje seja visto a outra luz. No mesmo ano, Paul formaliza a relação com a atriz Carrie Fisher (a ‘Princesa Leia’ de Star Wars), mas o casal divorcia-se seis meses depois.

Simon e Carrie Fisher.
Simon e Carrie Fisher.

Nas palavras de Simon, “quando se tem um fracasso pessoal aliado a um fracasso artístico, pode-se entrar em parafuso. Foi o que me aconteceu. As coisas só melhoraram quando comecei a ouvir música sul-africana. Um amigo emprestou-me uma cassete que eu ouvia no carro.”

“Ninguém achou grande ideia. Disseram, ‘vai usar ritmos africanos para revitalizar a carreira’. Mas, quando sabemos que ninguém está a observar, podemos fazer o que nos apetecer.”

IDEIAS E REALIDADES

Graceland causou polémica quando Paul Simon foi a Joanesburgo gravar com músicos locais. “Isso não é nada a não ser roubar!”, acusou um estudante negro numa conferência que Simon deu. O músico respondeu, nervoso: “Achas que é fácil criar um disco assim? É só dizer, ‘vou até lá, arranjo uns músicos, faço umas letras, edito isto e já está’? Achas que conseguias fazer um sucesso disto?” As letras foram escritas com base nos ritmos e nas músicas, mas foi a conjugação de poesia urbana, amores falhados, problemas de comunicação e a ânsia por chegar a um entendimento com uma pessoa ou uma cultura, que fizeram de Graceland um disco universal.

A cassete que um amigo emprestou ao músico e que despertou nele o interesse pela música africana.
A cassete que um amigo emprestou ao músico e que despertou nele o interesse pela música africana.

Paul Simon foi também acusado de quebrar o boicote cultural das Nações Unidas à África do Sul, algo que fez inadvertidamente. “Eu achava que era só para músicos que lá fossem tocar. Não penso que esse boicote se destinasse a impedir que a cultura e a arte sul-africanas fossem divulgadas no mundo.” De resto, foi assim que os músicos negros encararam a questão, apreciando o gesto apolítico de Simon e agradecendo a exposição internacional que deu à cultura musical africana.

O Apartheid causou-lhe inúmeros transtornos; deu concertos sob ameaça de bomba e atuou com uma rede entre o palco e público. O irmão de Joseph Shabalala, (líder dos Ladysmith Black Mambazo) foi assassinado de maneira violenta: Um tiro na cara. Perturbado com o que considerou um crime racista, o cantor chorou em palco. Mas Shabalala apoiou Paul Simon: “Não o considero um amigo. Considero-o um ser humano. Um irmão.”

Para Simon, o projeto era “o mesmo que dizer, ‘entendemo-nos musicalmente. Porque não passar isto para o plano da realidade’?” No entanto, em 1992, já na digressão Rhythm of the Saints, as ameaças prosseguiram e o escritório do promotor de um concerto foi alvo de um ataque à granada.

IN MY LITTLE TOWN

paul simon under african skies (2)Um dos raros cantores/compositores que conjuga quase sempre o reconhecimento da crítica com o sucesso comercial, Paul Simon nasceu em Newark, New Jersey, em 1941, e cresceu em Queens, Nova Iorque. Conheceu Art Garfunkel em 1956. Decidem atuar sob o nome “Tom and Jerry” e gravam o single «Hey, Schoolgirl», número 49 nas tabelas de vendas, sucesso assinalável para dois adolescentes, mas que não teve continuidade. Simon queria seguir a carreira musical, mas licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas. Era um autodidata, embora fosse já um guitarrista exímio. No início da década de 60, escrevia canções para outros artistas, gravando as “demos” sob pseudónimos. Entretanto, o duo tenta novamente o mundo da música.

Quando gravaram o primeiro disco “sério”, Wednesday Morning 3 A.M. (1964), a denominação “Tom and Jerry” não se adequava. A solução foi usar os apelidos. Como disse Mike Nichols, realizador de The Graduate, “naqueles tempos, nenhum artista tinha um nome como Garfunkel… era preciso lata”. Mas o álbum não vendeu e Simon partiu, desanimado, para Inglaterra. 1965 foi o ano do folk-rock de Bob Dylan. A Columbia decidiu lançar o single «The Sounds of Silence» adicionando guitarras elétricas e bateria, com o desconhecimento da dupla. A canção chegou a número 1 do top, e Simon regressou aos EUA, gravando, com Garfunkel, o álbum homónimo, dando continuidade ao sucesso inesperado.

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Simon e Garfunkel eram amigos, mas, com as pressões e as constantes digressões, a relação começou a desagregar-se. Simon era pacato, reservado e metódico; sentia-se mais à vontade no estúdio, onde era perfecionista. Ao vivo, custava-lhe lidar com a atenção. “Nesse aspeto, o Art deu-me a autoconfiança que me faltava.” Garfunkel explica que “Paul não pareceu muito divertido com o nosso sucesso”. De facto, as canções sobre suicidas, solidão e alienação refletiam o humor de Simon, o que veio a provocar algumas batalhas com a depressão.

A dupla conquistou o Grammy para melhor álbum do ano com Bookends, em 1966, e The Graduate, em 1969, mas o auge do sucesso foi Bridge Over Troubled Water, vencedor absoluto dos Grammies de 1970. Ironicamente, foi o fim; a tensão acentuara-se, com Garfunkel a querer seguir uma carreira no cinema e Simon a querer enveredar por outros estilos musicais.

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Simon começa uma fulgurante carreira a solo, com o álbum homónimo de 1971. Durante a década de 70, lançou êxitos como «Kodachrome» ou «Me and Julio Down By the Schoolyard». As ligações com o cinema pareciam fortes, chegando a entrar em Annie Hall de Woody Allen. No final da década, os problemas contratuais obrigaram a um afastamento, mas regressou em 1980, escrevendo o argumento e compondo a banda sonora de One-Trick Pony.

O filme foi um flop, mas a banda sonora integrava temas como «Late in the Evening». No ano seguinte, Simon e Garfunkel reúnem 500 mil pessoas no Central Park para um concerto histórico. Planeavam lançar um disco de inéditos, mas os desentendimentos do passado reavivaram-se, e Simon lançou o álbum a solo: Hearts and Bones.

CURIOSIDADE SOBRE OUTRAS CULTURAS

Quem conhece a carreira de Paul Simon, sabe que esta curiosidade por outros ritmos começou no final dos anos 60, com «El Condor Pasa», ainda num álbum de Simon & Garfunkel. No primeiro álbum a solo, arriscou o reggae e ritmos brasileiros. Estudou a música de Tom Jobim e saiu-se com Still Crazy After All These Years, em 1975, vencendo o Grammy de Melhor Álbum.

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Recentemente, tem gravado poucos álbuns, mas mantido um nível de qualidade notável. Ainda assim, não conseguiu evitar polémicas. No musical The Capeman, acusaram-no de “glorificar um assassino”, por exemplo.

Há 20 anos, Philip Glass disse: “Temos de ouvir “Gershwin, Cole Porter e Irving Berlin para encontrar um talento comparável ao de Simon.”

Nos anos 90, perguntaram a Carrie Fisher quais as canções que o ex-marido mais apreciava. “Ela não gostava nada do «I Am a Rock» e outras coisas… mas de Graceland, sim. Orgulhava-se disso. De todo esse trabalho.”

David Furtado

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