O Sargento da Força Um: Os nomes são sempre os mesmos

Outro dos melhores filmes que vi no ano passado também foi em DVD: The Big Red One, lançado em Portugal com o título O Sargento da Força Um numa excelente edição especial. Trata-se de uma obra de Samuel Fuller, de 1980, um dos seus últimos filmes e um projeto que demorou 25 anos a concretizar.

big red one marvin 12

The Big Red One começa a preto e branco, com um soldado (Lee Marvin) sozinho num campo de batalha da 1ª Guerra Mundial, perdido no meio do fumo. Um cavalo assustado esmaga-lhe a espingarda e, quando surge um alemão, gritando que a guerra terminou, Marvin mata-o sem contemplações, retirando-lhe o emblema vermelho “1” do quépi, tudo sob o olhar de uma estátua de Cristo crucificado, em cujas cavidades oculares nos é dado um grande plano de formigas.

Samuel Fuller no seu cameo enquanto repórter de guerra.
Samuel Fuller no seu cameo enquanto repórter de guerra.

Quando regressa ao quartel-general e exibe este troféu, informam-no: “A guerra acabou há quatro horas. Bem, você não sabia que tinha acabado.” “Ele sabia”, responde Marvin, apercebendo-se da gravidade do seu ato.

Avançamos para a 2ª Guerra Mundial, através da narração de um soldado, ‘Zeb’, o ‘Hemingway do Bronx’, o personagem que representa Fuller, quase sempre de charuto, e cuja “voz off” nos acompanha ao longo do filme: “Um quarto de século depois, aquele pedaço de pano vermelho tirado do alemão morto tinha ficado famoso por todo o mundo. Era a insígnia da 1ª Divisão de Infantaria. Os Primeiros Lutadores, a Força Um.” A comandá-la está o Sargento, que não esqueceu o erro do anterior conflito. Ainda não passaram 10 minutos e já Fuller nos proporcionou metáforas para uma obra inteira.

O Sargento comanda a Força Um, do Norte de África à Sicília, passando pelo desembarque do Dia D, liderando jovens que pouco ou nada sabem da guerra, com o filme a centrar-se em cinco deles. ‘Griff’ (Mark Hamill, ainda promissor, após o sucesso de Star Wars) não consegue disparar sobre o inimigo. Mais tarde, desabafa com Marvin:

Griff: Não consigo assassinar ninguém.
Sargento: Nós não assassinamos, nós matamos.
Griff: É a mesma coisa.
Sargento: O raio é que é, Griff. Tu não assassinas animais, tu mata-los.

Mark Hamill.
Mark Hamill.

Sem um grande orçamento, Samuel Fuller conta-nos experiências autobiográficas. É claro que Lee Marvin, sendo ele próprio veterano da 2ª Grande Guerra e tendo ganho a Purple Heart, dá-nos aqui um dos desempenhos da sua carreira. O realizador, por seu turno, foi condecorado com a Bronze Star, a Silver Star e a Purple Heart no mesmo conflito e incorporado na Força Um verdadeira, vivendo experiências terríveis. Esta combinação confere a The Big Red One uma intensidade e um realismo de insider que não se encontra em obras como Saving Private Ryan (Spielberg eternamente a piscar o olho às grandes audiências e a copiar Fuller) chegando mesmo a ser a antítese. Colocados no mesmo plano que os recrutas, confrontamo-nos com várias situações aparentemente incompreensíveis: Tiroteios e bombardeamentos que fazem tremer o solo, intercalados numa história com conversas de caserna, cenas magníficas e poucos sermões.

Samuel Fuller considerava que era impossível transpor a verdadeira experiência do que é uma guerra para o grande ecrã: “O público não o suportaria.”

Não falta humor negro, baseado em incidentes que o realizador testemunhou. Quando um soldado é ferido, o Sargento socorre-o. “Vais viver, Smitty. Despoletaste uma mina. Não foram feitas para te matar, só para te castrar.” “Para me castrar?! Oh, meu Deus! Ei, aqui está ele. Encontrei-o. Ei, isso é a minha gaita! Devolva-ma! Devolva-me a minha gaita!” O sargento retorque, “é só um dos testículos, Smitty. Podes viver sem ele. Foi por isso que te deram dois”, atirando o órgão por cima do ombro.

Quando o próprio Sargento é ferido e acorda no hospital, um médico alemão efeminado dá-lhe um beijo na boca. Marvin aperta-lhe o pescoço e diz: “Percebo que estejas excitado, Fritz, mas tens mau hálito.”

Nesta sequência, os soldados apercebem-se que o atirador furtivo é apenas um miúdo da juventude hitleriana. A solução não foi matá-lo, embora todos o quisessem. O comandante da unidade deu-lhe umas valentes palmadas no traseiro, até que deixasse de gritar por Hitler e choramingasse, “papá”. Outra situação que Fuller testemunhou:

“A ÚNICA GLÓRIA DA GUERRA É A SOBREVIVÊNCIA”

Mark Hamill e Lee Marvin.
Mark Hamill e Lee Marvin.

A Força Um entra novamente em combate com os nazis e, depois de os aniquilar, descobre que o local é um campo de concentração. É aqui que ‘Griff’, já massacrado pela incompreensibilidade da guerra e assistindo aos vestígios de uma atrocidade que não testemunhara, persegue um nazi que, sem balas, se refugia num forno crematório. ‘Griff’ abre as portas uma a uma, até o encontrar. Este dispara a seco, com um olhar de ódio. É um momento em que podemos adivinhar no rosto de Mark Hamill uma grande carreira que não se concretizaria. Repugnado, dispara contra o nazi dezenas de tiros cadenciados, que começam a causar estranheza aos camaradas que os ouvem à distância. Quando o Sargento o encontra, sozinho e ainda a disparar contra o cadáver, bate-lhe no ombro e diz apenas: “Acho que lhe acertaste.” Fuller também testemunhou isto, quando a sua unidade libertou o campo de concentração de Falkenau.

Foi neste campo que Fuller “realizou” o seu primeiro filme. Com uma câmara que a mãe lhe enviara, captou o horror de Falkenau, em que “os prisioneiros foram libertados, apenas para morrerem livres”. Samuel Fuller guardaria o material a sete chaves, com medo de reavivar tais horrores.

Neste campo, Marvin encontra uma criança viva. Deita-a numa cama, empurrando o cadáver de um nazi como se fosse um fantoche. Durante 10 minutos, só se ouve este “interrogatório” do Sargento, que tenta alimentar a criança. “Judeu? Polaco? Checo? Russo?” O miúdo acompanha-o até à sombra de uma árvore e pega no capacete de Marvin, colocando-o na sua própria cabeça e sorrindo. O Sargento tira-o com firmeza, o miúdo não percebe, mas Marvin fita-o, compreensivo. Depois, leva-o às cavalitas para fora dali, até que a cabeça da criança tomba. A narração de ‘Zeb’ explica-nos: “Andou às voltas durante meia hora até perceber que tinha de largar o miúdo.”

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Contudo, Fuller, apesar da sua ascendência judaica, sempre distinguiu alemães de nazis, e este breve comentário ao Holocausto é dos mais fortes alguma vez mostrado num filme de guerra. No que toca a realismo psicológico, The Big Red One é incomparável. Só encontro semelhanças em Platoon, de Oliver Stone, também ele um ex-soldado. Ainda que sejam obras muito diferentes, ambas demonstram, de maneira brutal, a incongruência da guerra, sem recurso a demasiados efeitos especiais. Excluo Apocalypse Now por ser uma adaptação de um livro de Conrad, não literal, executada magistralmente mas repleta de egos e floreados. Full Metal Jacket está também no topo, tal como The Deer Hunter, sobre as sequelas psicológicas dos ex-combatentes. Mas o que se nota na obra de Fuller é a urgência em transmitir ao público, de forma quase documental, como interagem os seres humanos numa situação que não faz sentido.

The Big Red One: The Reconstruction é o título da versão restaurada em 2004 e estreada no Festival de Cannes desse ano, incluindo metade da versão original de Fuller. Em 1980, o filme fora cortado para uma hora e 53 minutos. Tem agora mais de três horas. Fuller, descontente mas um eterno otimista, ficou satisfeito por o seu filme ser exibido, ainda que cortado.

Não se trata aqui de uma megalomania como a versão Apocalypse Now Redux, cujos acréscimos são dispensáveis, mas de um trabalho exímio que pretendeu dar-nos a visão original de Fuller, sem cortes que provocavam mal-entendidos e brusquidão narrativa. O realizador escreveu um livro homónimo ainda mais expansivo e, antes de falecer, tinha a esperança de que a sua visão original fosse restaurada, o que, felizmente, aconteceu, embora o seu autor já não o pudesse testemunhar.

Fuller viria a realizar outra obra marcante em 1982, White Dog, desta vez atacando o racismo, filme que a Paramount se recusou a lançar nos cinemas. O realizador sempre esteve adiantado em relação aos tempos. Já o western Forty Guns, de 1957, contrasta com todos os westerns dessa época e posteriores.

Noutra cena, os soldados encontram um memorial de guerra aos americanos, no mesmo campo em que Lee Marvin se perdeu, décadas antes.

Johnson: Já viram como são rápidos a escrever os nomes dos que morreram?
Sargento: É um memorial da 1ª Guerra Mundial.
Johnson: Mas os nomes são os mesmos.
Sargento: São sempre.

David Furtado

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