Van Gogh: O Outro Lado do Espelho

Depois de passar um ano no hospício de Saint-Rémy, Van Gogh chega a casa do irmão, em Paris, a 16 de maio de 1890, tendo ficado três dias. Foi onde viu reunida toda a sua obra, pela primeira vez. As telas estavam por todo o lado – nas paredes do apartamento, debaixo da cama, no sofá e nos armários. Como sempre defendera que, para julgar uma única obra de um artista era essencial conhecer toda a sua criação, esta exposição improvisada abriu-lhe novos horizontes, no que viria a ser ironicamente o epílogo da sua carreira.

Auto-retrato (1887).
Auto-retrato (1887).

Abandonando Paris, o pintor chegou a Auvers-sur-Oise a 20 de maio de 1890, procurando um sítio tranquilo para repousar e dar início a um novo ciclo da sua vida. O período coincidiu com uma fase de grande criatividade, com o artista a produzir mais de 70 quadros e 35 desenhos em dois meses. Mas Van Gogh era um homem atormentado e, a 27 de julho, tentou suicidar-se com um tiro de revólver, morrendo dois dias depois, aos 37 anos.

Numa das últimas cartas, Van Gogh conta ao irmão: “Creio firmemente que é mais vantajoso trabalhar do que não trabalhar, apesar de toda a má fortuna que é de vaticinar para os quadros.”

Só vendeu um único quadro enquanto viveu e, depois da sua morte, foram encontradas telas suas a tapar buracos de galinheiros e esquecidas no sótão de alguém, por não serem “suficientemente decorativas”.

ARRISCAR A VIDA NA ARTE

A correspondência de Van Gogh foi publicada em português – numa tradução rara –, volume que abrange o período 1872-1890. Na fase de Auvers, o tom desiludido mistura-se com uma esperança na convalescença. “Se não fosse o meu trabalho, há muito tempo que estava ainda mais aniquilado. As melhoras acentuam-se, a crise passou como uma tempestade, e eu trabalho para dar ainda umas pinceladas com o mesmo ardor calmo e contínuo.”

Cartas de Van Gogh a seu Irmão Théo é um documento fundamental para compreender o pintor, os seus estados de espírito e objetivos artísticos. A última carta nunca chegou a ser enviada; Vincent tinha-a consigo no dia em que morreu: “Ora pois… o meu trabalho, nele arrisco a vida e nele perdi, em parte, a razão.”

Nesta obra, mais do que um simples conjunto de cartas, Van Gogh denota uma capacidade de expressão invulgar, nas suas reflexões e pensamentos. Comenta os seus problemas amorosos num tom irónico. Rejeitado pela amada, optou por manter a esperança: “Até hoje não me arrependo do que deliberei, embora esbarre sempre com aquele ‘nunca, não, jamais!’ É claro que tive logo de suportar algumas das ‘pequenas misérias da vida humana’. Registadas em livro, teriam talvez o dom de divertir os leitores, mas quando as experimentamos em pessoa, elas não se parecem nada com sensações agradáveis.” (1881.)

Van Gogh devorava todos os livros ao seu alcance, como A Bíblia, Shakespeare, Victor Hugo, Dickens, Beecher-Stowe e Ésquilo. Compara a literatura à pintura, por diversas vezes. “Gostaria que toda a gente tivesse a faculdade de ler um livro em pouco tempo e guardar dele impressões nítidas. A leitura assemelha-se à contemplação de um quadro, tem-se de lhe descobrir depressa as belezas, sem hesitar, e apreciá-lo com segurança.”

72 PINTURAS EM 70 DIAS

A fase de Auvers é relatada por Vincent ao irmão. “Tenho passado muito bem ultimamente; trabalho com afinco, pintei quatro estudos e fiz dois desenhos.” O pintor não esconde as dificuldades, trabalhando com determinação e falando da necessidade de retocar os quadros. “De regresso aqui, pus mãos à obra. Todavia, o pincel quase me caía da mão. Sabendo o que desejava, ainda assim, consegui pintar três telas grandes. (…) Aplico-me com toda a atenção, procuro fazer tão bem como certos pintores que muito estimei e admirei.”

MAIS DO QUE O PREÇO DA TINTA

Vincent Van Gogh é a personificação do artista que nunca foi reconhecido em vida. Tal como Edgar Allan Poe, que recebeu pouco mais de 10 dólares por ter escrito um dos poemas mais influentes da língua inglesa – «O Corvo» –, Van Gogh nunca conseguiu vender a sua arte, sendo praticamente sustentado pelo irmão. Naquele que é um dos contrastes mais brutais da história da arte, várias das suas pinturas tornaram-se as mais valiosas do mundo.

No entanto, ao ler as suas cartas, fica o retrato de um homem que apenas vivia para a arte e que, em última análise, foi consumido por ela. Defendendo a integridade do artista e desprezando a hipocrisia inerente ao comércio da pintura, Vincent pagou um alto preço, mas sabia que a sua arte iria perdurar: “Não posso evitar o facto de os meus quadros não serem vendáveis. Mas chegará o tempo em que as pessoas constatarão que eles valem mais do que o preço da tinta.”

“Quanto mais nos esforçamos por atingir a perfeição numa determinada esfera de atividade, ou numa carreira, mais se adquire uma maneira pessoal de pensar e de agir; quanto mais a gente se apega a ideias firmes, mais o carácter se robustece, o que não quer dizer que se deva dar força a ideias feitas.” Vincent não se absteve de fitar o abismo da sua alma. Tal como disse Nietzsche, “quando se olha demasiado para o abismo, ele começa a olhar para nós”. As últimas paisagens de Van Gogh são, portanto, torturadas, como Campo de Trigo com Corvos, obra derradeira e o outro lado do espelho de um génio.

VAN GOGH (AINDA) BATE RECORDES

Em 1987, o famoso quadro Os Lírios foi vendido por um valor recorde de 53,9 milhões de dólares, na Sotheby’s, Nova Iorque e, em maio de 1990, um colecionador pagou 82,5 milhões pelo Retrato do Dr. Gachet, na Christie’s. Em 2007, o pintor foi alvo de uma exposição sem precedentes. A mostra reuniu 26 quadros no Museu Thyssen-Bornemisza, em Madrid, e intitulou-se “As Últimas Paisagens”. Reuniu obras dos últimos dias de Van Gogh, em que este pinta os bosques ou as casas de campo, inspirado pela aldeia francesa de Auvers, a 35 quilómetros de Paris, onde passou os últimos meses. A exposição, que bateu o recorde de visitantes do museu, incluiu também cartas que Van Gogh escreveu ao irmão.

O conservador-chefe do museu afirma que a exposição pretendeu ser “uma homenagem ao seu derradeiro esforço criativo”. Guillermo Solana sublinha que se tratou de um evento “muito especial, que quase esteve para não se realizar até à data da inauguração”. A exposição recebeu quase 80 mil visitantes.

David Furtado

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3 Comments Add yours

  1. Stephanie diz:

    As Obras dele são simplesmente Lindas *.*

    1. Lindas mas dolorosas. Obrigado pelo comentário, Stephanie.

  2. Nunca vi tanta dor expressa em quadros. Um ser humano nao compreendido. Uma pena que não presenciou reconhecimento. Belíssima obra. Faz-me ter vontade de chorar quando vejo starry night…

Comentários:

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