John Carpenter’s The Ward: A falta de inspiração tem um preço

the wardHá dias, falei de um filme que achei dos melhores que vi no ano passado, The Miracle Worker. Este foi um dos piores. Esta crítica foi publicada na altura, sendo a única que escrevi. Contém spoilers para quem viu Shutter Island.

As expectativas eram altas quando foi anunciado que John Carpenter voltaria a realizar uma longa-metragem após um interregno de 10 anos. Infelizmente, The Ward (O Hospício), que estreia esta quinta-feira em Portugal, não possui quase nenhuma das características que tornaram o cineasta num dos mestres do suspense e terror dos últimos 40 anos.

Quando perguntaram recentemente a John Carpenter o que achava de tantos remakes dos seus filmes, até porque a sua qualidade é duvidosa e tal está implícito na questão, este respondeu: “Não quero saber, quero é ter o cheque na mão.” Este desrespeito para com o próprio legado deixa um cinéfilo de pé atrás, mas com a esperança de que o autor do comentário se refira apenas a filmes de terceiros. Porém, quando vemos que Carpenter aplicou esse lema a um filme seu, a conclusão é amarga.

The Ward é a história de uma rapariga internada num hospício, depois de ter sido encontrada junto a uma casa incendiada. Na instituição, Kristen (Amber Heard) é perseguida por um fantasma. No final, há uma reviravolta e compreende-se então o enigmático início. Quem viu um dos últimos trabalhos de Scorsese, tem a chave para este “enorme” mistério, já que a trama não passa de uma pálida fotocópia e um autêntico “ripoff” de Shutter Island.

Já não é a primeira vez que o argumento de um filme de Carpenter está envolvido numa situação ambígua. O guião de Starman (1983), foi escrito por Michael Brandon, (mais conhecido entre nós como o “Dempsey” da série de TV dos anos 80, Dempsey e Makepeace). Consta que a Columbia Pictures comprou o script de Brandon, alterou-o e não lhe deu qualquer crédito.

Mas oxalá fosse este o único problema do filme. Comecemos pelo elenco. A escolha de Amber Heard para protagonista foi catastrófica, tendo em conta a dinâmica de que a atriz é capaz. Aqui, varia entre o ar de vítima, o ar de desafio – franzindo o sobrolho com um ar extremamente ameaçador –, o intrigado e o assustado, alternando estas facetas com a subtileza de Steven Seagal. Heard partilha a ala psiquiátrica com outras quatro atrizes, Mamie Gummer (filha de Meryl Streep, já a usufruir de umas cunhas), Danielle Panabaker, Laura-Leigh e Lindsy Fonseca. Tendo em conta a “versatilidade” da atriz principal, este quarteto até se torna adequado, tal é a inépcia que todas demonstram. Umas lições de arte dramática viriam a calhar. Jared Harris, que costuma ser um ator secundário competente, encarna o psiquiatra de serviço, o seráfico Dr. Stringer, que parece conhecer a chave do mistério. Contudo, Harris não ata nem desata, por culpa de um argumento que faz dele uma figura de cartolina, incapaz de assustar uma criança.

O terceiro problema é o facto de Carpenter ter escolhido realizar, pela primeira vez, um filme de época. Passado em 1966, no Oregon, o filme poder-se-ia desenrolar facilmente em 2011, no Alabama. O verdadeiro mistério aqui é por que motivo Carpenter optou por isto. Vêem-se um ou dois carros dos anos 60, uma TV e o vestuário dos (poucos) intervenientes é adequado aos tempos. A única coisa que remete para essa época é a técnica brutal dos eletrochoques, já que a mesma carga de eletricidade era administrada a um assassino ou a alguém com depressão. A técnica evoluiu, desde então, mas custa a crer que este pormenor tenha sido o motivo, já que não tem grande importância no enredo.

O quarto problema é a música de Mark Kilian. Começa por captar a atenção, com o emprego de uma melodia adequada, mas depressa descamba naquilo que o próprio John Carpenter apelida de banda sonora “Rato Mickey”. Expliquemos: Num documentário sobre Dario Argento, Carpenter afirma que Suspiria “nunca teria resultado tão bem se tivesse uma banda sonora Rato Mickey, das que se ouvem constantemente nos filmes”, referindo-se às orquestrações indiferenciadas e típicas, em filmes de suspense, terror ou ação. Sendo, ele próprio, um compositor talentoso, custa a aceitar que The Ward sofra deste mesmo mal que Carpenter criticou de forma certeira.

the ward 2

ISTO NÃO PODE ESTAR A ACONTECER

O quinto problema, e talvez o mais grave, é o facto de o filme não parecer ter sido realizado pelo autor de clássicos como The Thing, The Fog e Halloween, entre outros. Podia facilmente ser reduzido em meia hora e, despido de pretensões, assumir-se como um episódio pouco inspirado de qualquer série de TV. A realização de Carpenter é, no máximo, competente. Desinteressado pela história, num gesto que soa a desrespeito pelo público, emprega sustos previsíveis e rudimentares; é a pessoa que aparece por detrás quando está tudo em silêncio, raparigas a fugirem por corredores e a esconderem-se em armários, como se escapassem do papão, aparições súbitas do fantasma, sem que percebamos se é uma figura etérea ou semi-humana… enfim, um desleixo completo e um desfilar de clichés.

Segundo o próprio Carpenter, em declarações a um canal francês, durante a rodagem, um dos aspetos que o interessou foi a ideia de filmar “pessoas circunscritas a um ambiente fechado”. Para quem realizou clássicos em que o uso da claustrofobia é exímio, como Assault on Precinct 13 ou The Thing, a ideia não será inovadora. E o resultado é um cenário branco, com cinco raparigas, três enfermeiros, um porteiro e corredores mal iluminados. A discrepância entre o aspeto austero do exterior do hospício e o seu interior é tão grande, que não acreditamos que uma câmara tenha sequer entrado lá dentro. Uma cena filmada num jardim é inócua, bem como outra sequência em que as raparigas começam inesperadamente a dançar, proporcionando o momento de “comic relief” num filme que, supõe-se, encerre uma grande tensão. Vista no contexto, esta cena é patética.

Os diálogos parecem um insulto a um filme de terror softcore série B para teenagers: “Não gosto da escuridão. Coisas más acontecem na escuridão.” “Tens inveja de mim desde que aqui cheguei.” “Estou farta de aturar esse teu comportamento patético!” “Não! Não! Não! Não! Isto não pode estar a acontecer!” Por esta altura, um admirador de Carpenter já está a dizer o mesmo. Pelo meio, há também uma sessão de hipnotismo ultrarrápida com um metrónomo (que nos faz recear olhar para um metrónomo mais de quatro segundos) e a heroína a livrar-se de um colete-de-forças como se fosse um sobretudo abaixo do seu tamanho. Para lá destas situações de surrealismo ridículo, a única cena forte envolve uma das pacientes a ser basicamente frita com a máquina de eletrochoques. No entanto, a sequência é filmada com tal indiferença e previsibilidade que quase esperamos ver a cabeça da vítima a explodir, como em Scanners de David Cronenberg, quanto mais não seja, para quebrar o marasmo.

Porque o filme, ao fim de uma hora e 20, caiu em tal rotina que Carpenter acorda e decide pôr-lhe fim com uma machadada: Termina-o com uma sequência apressada de cinco minutos. Ainda mal estamos refeitos desta explicação milagrosa, quando os 88 minutos que se arrastaram como uma lesma terminam abruptamente com um cliché dos filmes de terror, tão absurdo e imberbe que só provoca a sensação amarga de um total desperdício de tempo.

10 ANOS NÃO BASTARAM

O único traço identificável de John Carpenter pode ver-se nas “dolly shots” do início, em que a câmara se move ao longo de um corredor, sem estar completamente estática, como se fosse o ponto de vista de alguém, técnica usada pelo realizador, com grande sucesso, noutros filmes. Aqui, depressa nos apercebemos que o ponto de vista é de alguém que realiza em piloto automático, de modo impassível e desapaixonado, preocupado com o tal cheque na mão.

Durante a década em que Carpenter se ausentou do grande ecrã, o terror teve alguns êxitos, como a saga Saw (que se tornaria num franchise cansativo) ou Haute Tension de Alexandre Aja, passando pelo mau gosto e pela repelência de A Serbian Film. Houve produções independentes e interessantes como Eden Lake, a singularidade de Orphan e o remake razoável de George A. Romero, The Crazies. Assistimos também à banalidade de um remake de Friday the 13th e de diversos Scary Movies, além de múltiplos clones inofensivos – produções mais ou menos independentes e nada originais que caíram no esquecimento. E é nesta inglória categoria que The Ward se enquadra.

O penúltimo filme de Carpenter, Ghosts of Mars, foi considerado por muitos como um dos pontos mais baixos da sua carreira. Mas não podemos comparar a energia e o descaramento desse filme, o ar “don’t mess with me” de Natasha Henstridge com o débil The Ward. Qualquer fã de Carpenter que tenha andado pelos meandros do nevoeiro, se tenha assustado com o assassino de Halloween, tenha torcido para que Snake Plissken chegasse a tempo, ou por que James Woods apanhasse mais um “sacana de um vampiro”, sairá do cinema a esperar que John Carpenter aproveite outros 10 anos para usufruir do cheque.

David Furtado

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