Blade Runner: 30 anos depois

“Não se colocam anúncios para assassinos nos jornais. Era essa a minha profissão. Ex-polícia, ex-Blade Runner… ex-assassino.” O monólogo lacónico em “voz off” de Harrison Ford, no início do filme original, inspira-se na tradição do film noir. Ridley Scott pretendia criar um filme negro dos anos 50 em clima futurista, pelo que Blade Runner – Perigo Iminente se desenrola quase sempre de noite, durante uma chuva constante. A personagem central, Rick Deckard – o caçador de androides – é um ex-polícia nesse estilo, com a sua gabardina, introspetivo, desconfiado, astuto e um bebedor solitário, seguindo a tradição do detetive Philip Marlowe, de Raymond Chandler.

blade runner (8)

A “voz off” desapareceu na versão do realizador (a segunda), que possui um final mais ambíguo e a visão do unicórnio, insinuando que a personagem de Ford pode ser também um androide. Enquanto, na versão original, Deckard e Rachael partem rumo ao pôr-do-sol, na segunda, ouvimos a frase de um dos personagens: “É pena ela não poder viver. Mas quem pode?” Deckard esmaga então o origami do unicórnio com a mão e parte com Rachael para um futuro incerto. Em Julho de 2000, o realizador Ridley Scott garantiu que Deckard é, de facto, um androide. Mas Harrison Ford tem uma opinião diferente: “Tínhamos concordado que não era.” Aliás, Ford discordou também da narração, que foi imposta pela produção: “Gravei-a de várias formas, mas nunca achei que resultasse. Penso que o filme não foi feito para ter uma narração.”

blade runner (1)Blade Runner baseia-se em Do Androids Dream of Electric Sheep?, de Philip K. Dick, mas a denominação provém de um outro livro de Alan Nourse intitulado The Bladerunner. William S. Burroughs escreveu um argumento baseado na obra de Nourse e também uma novela intitulada Blade Runner: A Movie. Ridley Scott comprou os direitos do uso do título, mas não os do argumento e do livro. Burroughs define originalmente um “blade runner” como alguém que vende instrumentos cirúrgicos ilegais. O livro de Philip K. Dick começou a ser publicado com o título de Blade Runner, depois do filme original estrear. A obra está disponível em Portugal, mas refira-se que Philip K. Dick tem sido algo maltratado pelas editoras. Um caso óbvio é o de Vazio Infinito, em que o oportuno título português caracteriza bem a tradução.

Quando foi originalmente lançado, em 1982, além de ser massacrado pelos críticos, arrecadou apenas 26,2 milhões de dólares e foi um flop de bilheteira. Hoje, a crítica considera-o um marco na História, mas, ironicamente, os elementos que fazem do filme uma obra-prima constam da primeira versão. Lançado no mesmo ano de E.T. – O Extra-Terrestre, Blade Runner enfrentou o mesmo problema do clássico The Thing, de John Carpenter, outro fiasco nas salas de cinema. Ao passo que E.T. retratava um extraterrestre amigável e transmitia uma imagem esperançosa da humanidade, nos mundos apresentados por Scott e Carpenter, a esperança no homem parece quase perdida.

blade runner (6)

VENEZA, 2007

Ridley Scott apresentou a nova versão de Blade Runner, no Festival de Cinema de Veneza, com a presença dos atores Rutger Hauer, Daryl Hannah e Edward James Olmos. A versão não diverge muito do “director’s cut” de 1992; termina da mesma forma e o tom é essencialmente o mesmo (sem narração e com o unicórnio). Algumas cenas são mais extensas, os efeitos especiais foram melhorados e a visão futurista de Los Angeles foi transformada num mundo ainda mais cristalino, com os seus letreiros de néon e arquitetura imaginativa. A banda sonora também foi reajustada, mas a revitalização não foi tão profunda como a da trilogia Star Wars em DVD.

Em entrevista ao The Times, em Veneza, Ridley Scott afirmou que “os filmes de ficção científica estão mortos, tal como os westerns. Já não há nada de original, já vimos tudo, já tudo foi feito”. Scott considera 2001: Odisseia no Espaço o ponto mais alto do género e vê no excesso de efeitos especiais e na fraqueza dos argumentos a origem da decadência. O realizador não parece muito interessado nas questões mais filosóficas, típicas da ficção científica.

As personagens do filme de Scott possuem contornos morais cinzentos e a única característica “agradável” é o sentimento que surge entre Deckard e Rachael. A «Ultimate Collector’s Edition» reúne cinco discos numa embalagem reminiscente da mala utilizada por Rick Deckard, para fazer o “teste de empatia Voight-Kampff” com o objetivo de diferenciar humanos de androides. A crítica de cinema Pauline Kael comentou que todos os personagens do filme provavelmente chumbariam neste teste…

Sean Young e Harrison Ford num momento descontraído de uma rodagem árdua.
Sean Young e Harrison Ford num momento descontraído de uma rodagem árdua.

De facto, não há muito calor humano em Blade Runner, mas Sean Young encarnou Rachael com uma conjugação de frieza e sensibilidade tão irrepreensível que o papel marcou a sua carreira para sempre. (Scott ambicionava Victoria Principal, de Dallas, para este papel.) Rutger Hauer, no papel do mais temível dos “androides replicantes”, Roy Batty, é austero, violento e poético. Embora o filme não seja um veículo para Harrison Ford, parte do sucesso deve-se ao seu contributo.

Numa entrevista da época, Ford descreve como abordou a personagem: “Contrariamente aos heróis de A Guerra das Estrelas e Os Salteadores da Arca Perdida, Rick Deckard é um homem que vive num estado permanente de incerteza. Há, nesta história, uma dimensão psicológica que não existia nos meus filmes precedentes. Isto não se parece com nada do que filmei até à data. Estava decidido a mudar completamente a minha aparência. Dar a mim mesmo uma outra cara é escapar à deprimente situação de ator catalogado, e também oferecer outra coisa ao público. É certo que depois torna-se muito difícil escapar à imagem que quisemos dar de nós próprios, em determinado filme.”

Ridley Scott explica o que pretende a um Harrison Ford já sem paciência.
Ridley Scott explica o que pretende a um Harrison Ford já sem paciência.

A obra de Ridley Scott é tudo menos uma adaptação literal do livro de Philip K. Dick, em que Deckard é casado, a personagem de Rachael é mais desenvolvida e a ação se desenrola em São Francisco. O autor baseou-se na sua própria experiência para criar o conceito de androides tão perfeitos a ponto de serem indistinguíveis de humanos. Não aceitava o facto de pessoas que cometeram atrocidades como o Holocausto pudessem apelidadas de “humanas”, considerando-as monstros inumanos. O uso de anfetaminas por parte do autor, enquanto escrevia, terá originado uma paranoia bastante mais real em redor deste conceito.

No início do filme, somos situados na época: “Los Angeles, 2019.” Mais próximos dessa data do que de 1982, as ideias cada vez são mais atuais. Uma sociedade industrializada, cínica e asséptica, é prevista em Blade Runner. E é um humanoide que suscita em Rick Deckard uma reflexão acerca da sua própria mortalidade.

blade runner (4)

FILME NEGRO FUTURISTA

O filme é uma história policial e um espetáculo visual único, colocando questões fulcrais acerca do homem e da natureza do amor, não se restringindo à denominação “clássico da ficção científica”. Os androides “replicantes” Nexus-6 têm quatro anos de vida. Foram criados com experiências implantadas no cérebro, idênticas às de um ser humano. São máquinas, mas “aprendem” a desenvolver emoções, ainda que o seu prazo de vida seja muito curto – o reverso da medalha.

Esta cena foi substituída. No original, notava-se nitidamente que era um duplo. Foi novamente filmada com a atriz Joanna Cassidy e incluída na versão agora disponível:

Uma das grandes qualidades de Blade Runner é o facto de inspirar diferentes questões, à medida que o revemos ao longo dos anos. Os temas foram adaptados da obra original, mas são explorados por Ridley Scott de modo diverso. A banda sonora de Vangelis adiciona uma terceira dimensão às imagens. Scott inspirou-se também num quadro de Edward Hopper, Nighthawks. Andava com uma cópia e mostrava-a à equipa técnica, para explicar o tipo de ambiente pretendido. O quadro de Hopper parece fascinar realizadores: Dario Argento já o recriara literalmente em Profondo Rosso.

Blade Runner é também uma proeza técnica: Foi nomeado para dois Óscares – Melhor Direção Artística e Melhores Efeitos Visuais. A revista Wired coloca-o em número um e a English Scientists/Guardian Science List considera-o o melhor filme de ficção científica de sempre, baseando-se em inquéritos a 60 cientistas. A Entertainment Weekly elege-o um dos melhores dos últimos 30 anos e a SFX Magazine coloca-o em terceiro lugar na lista. Está também no “top 10” da IMDB, acima de O Regresso de Jedi, Frankenstein, King Kong, Encontros Imediatos do Terceiro Grau ou E.T.

blade runner (3)

INÚMEROS EXTRAS

Blade Runner: The Final Cut foi editado em três formatos: Um com dois DVD, outro com quatro e um com cinco. A versão de cinco discos contém cenas inéditas ou prolongadas, novos efeitos especiais, comentários e uma faixa áudio em Dolby Digital 5.1. Os atores Harrison Ford, Rutger Hauer, Edward James Olmos, Joanna Cassidy, Sean Young e Daryl Hannah integram a lista de 80 colaboradores que participam no material bónus. Dangerous Days, documentário inédito de três horas e meia, dá-nos uma visão aprofundada de todos os aspetos do filme. A «Ultimate Collector’s Edition» reúne cinco discos numa embalagem reminiscente da mala utilizada por Rick Deckard, utilizada para fazer o “teste de empatia” aos androides. Incluem-se também uma miniatura do origami que integra passagens do filme, uma miniatura do carro e fotos de colecionador, além de várias curtas-metragens.

Os extras abrangem todas as vertentes imagináveis:

Comentário de Ridley Scott
Comentário do produtor executivo e coargumentista Hampton Fancher e do coargumentista David Peoples, do produtor Michael Deely e da executiva de produção Katherine Haber.
Comentários de Syd Mead; Lawrence G. Paull, David L. Snyder e dos supervisores de efeitos visuais, Douglas Trumbull, Richard Yuricich e David Dryer.
Falamos apenas do disco 1. No disco 2, poder-se-á apreciar o documentário Dangerous Days: Making of Blade Runner, no qual participa o elenco, equipa e críticos, oferecendo uma visão inédita dos bastidores.

O disco 3 contém a versão original de 1982, com a narração de Rick Deckard e o “final feliz”. Este disco inclui a versão originalmente lançada em vídeo até 1992, que contém algumas cenas prolongadas. Poder-se-á rever a “versão do realizador” de 1992, que omite a narração e inclui a breve sequência do unicórnio.

No disco quatro, surge «Enhancement Archive», 90 minutos de material apagado, curtas-metragens, trailers e galerias, examinando os efeitos especiais e o impacto da película. Este disco contém ainda os minidocumentários «The Electric Dreamer: Remembering Philip K. Dick» e «Sacrificial Sheep: The Novel vs. The Film», «Signs of the Times: Graphic Design», «Fashion Forward: Wardrobe & Styling», «Deck-A-Rep: The True Nature of Rick Deckard», acompanhados de «Philip K. Dick: The Blade Runner Interviews», em áudio e «Do Androids Dream of Electric Sheep Cover Gallery» (imagens). As galerias exploram a arte de Blade Runner, dos cartazes à comercialização do filme, passando pelas filmagens. Este disco inclui os testes prévios das personagens Rachael (Sean Young) e Pris (Daryl Hannah).

No disco 5, surge uma versão rara do filme, a «Workprint Version», radicalmente diferente de todas as que se conhecem, com uma cena de abertura alterada, sem a narração de Deckard até ao final, com a cena do unicórnio cortada, sem o “final feliz” e com uma banda sonora diferente.

blade runner (5)

Algumas curiosidades reveladas pela edição: No confronto final, Rutger Hauer saltou realmente entre os prédios. Na cena do combate entre Daryl Hannah e Harrison Ford, Hannah puxou o nariz de Ford com tanta força que o fez sangrar. A sequência em que Hauer liberta uma pomba foi uma ideia do ator. «Dangerous Days» era o título original do argumento. Outros títulos considerados foram «Android», «Animal» e «Mechanismo». Harrison Ford não gostou de participar, devido à morosidade da rodagem e ao facto de andar sempre ensopado (chove durante praticamente todo o filme).

Nas palavras de Ridley Scott, em entrevista à  Reuters, “esta versão resulta de um processo iniciado em 2000 e que prosseguiu durante sete anos de intensa pesquisa e restauros meticulosos”. O realizador argumenta que, esta sim, é a versão definitiva e que Blade Runner é o seu filme mais pessoal.

David Furtado

Anúncios

Comentários:

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s