Anthony Perkins: Perseguido por Psycho

Durante uma homenagem a Alfred Hitchcock, Anthony Perkins disse: “É fácil fazer um filme de terror, e uma geração de imitadores de Psycho tentaram muitas vezes. Colocam-se personagens unidimensionais num enredo altamente improvável, que deixa muito espaço para uma violência desmedida, mergulha-se esta confusão em sangue e tripas, lança-se em sete mil drive-ins, e depois perguntamos por que motivo os espectadores simplesmente não gostam. ‘Gostar’ é a palavra-chave. Porque o medo e o terror são emoções negativas. E foi preciso Hitchcock para nos fazer sentir essas emoções e ‘gostar’ ao mesmo tempo.”

anthony perkins psycho

De acordo com o argumentista Joseph Stefano, “no livro [em que o filme se baseia], ‘Norman Bates’ é de meia-idade, é um depravado, bebe muito, é obeso, usa óculos de lentes grossas e espreita por buracos. Achei-o bastante desagradável. Não gostava dele. E, quando ‘Marion’ é morta, é suposto eu transferir a minha empatia para este homem, e não o podia fazer, do modo como a personagem fora criada. Por isso, imaginei um jovem vulnerável, bem-parecido, triste, que mete dó. Hitchcock disse, ‘que tal o Tony Perkins?’ E claro que tinha sido praticamente quem eu descrevera.”

Hitchcock não gostava de atores e chamava-lhes “gado”. Houve exceções e uma foi Perkins, a quem chamava, durante a rodagem, “Master Bates”. Por isso, o ator começou a fazer sugestões e “Hitch” aceitou-as. O facto de Bates comer rebuçados, gaguejar um pouco, hesitar, tudo isto foi ideia de Anthony Perkins, que até obteve a liberdade de escolher o próprio guarda-roupa.

Janet Leigh recorda-o como tendo “um grande sentido de humor. Muito cortante.” Mas parece ser a única. Perkins era extremamente introvertido e, nesses tempos, ia todos os dias ao psiquiatra. Antes de uma cena importante, pedia sempre 5, 10 minutos e ia para o camarim. Quando saía, era ‘Norman Bates’. Ninguém percebia aquele esforço metódico de concentração, a não ser o realizador, que nunca fez um reparo ao seu desempenho.

anthony perkins psycho (1)

Amigos próximos do ator especulam que o modo com que encarnou ‘Norman Bates’ teria raízes na relação difícil que tinha com a sua mãe dominadora. Além disso, Perkins era homossexual, o que lhe criou problemas nos sets de vários filmes, em que os colegas o discriminaram.

Três anos antes de Psycho, nas filmagens de Fear Strikes Back (1957) tal aconteceu, e a sua revolta interior foi tanta que ao interpretar um jogador de baseball à beira de um esgotamento, num desempenho fulgurante, protagonizou uma sequência sensacional, totalmente desesperada, em que, a meio de um jogo, descontrola-se e desata a correr em volta do campo. Esta cena é um dos pontos altos da sua carreira.

Contudo, o ator era discreto sobre a sua tendência sexual, que, aliás era tabu em Hollywood. O facto de ter escondido essa faceta durante anos, e de não aceitar a sua homossexualidade, terá estado também patente no modo genial como interpreta a dualidade de ‘Norman Bates’. Segundo o argumentista de Psycho, “ele tinha uma compreensão da personagem e da situação em que se encontrava. Acho que o Tony Perkins devia saber o que era sentirmo-nos ‘presos’. De alguma forma, ele sabia. E, embora não tivéssemos falado nisso, acho que ele se estava a transformar no ‘Norman Bates’. E julgo que lhe custou sair do personagem, terminadas as filmagens”.

Para se ter noção da personalidade complexa de Perkins, o ator, em 1972, interpretou um pequeno papel em The Life and Times of Judge Roy Bean. A atriz estreante desse filme era Victoria Principal, mais tarde a estrela da série de TV Dallas. Nessa época, era uma mulher deslumbrante e não houve ninguém na equipa que não tentasse seduzi-la. Para espanto de muitos, e segundo o próprio Perkins, foi um caso de “combustão espontânea”. Ele, que sempre olhara com ansiedade para mulheres, passou quatro dias fogosos com Principal, a sua primeira experiência com o sexo oposto, aos 40 anos.

UM GÉNIO NA SARJETA

anthony perkins psycho (2)Mais tarde, Anthony Perkins casou e até foi pai de dois filhos, mas não entremos em mais pormenores, para não cair em discurso de tabloide. O ator soube que tinha SIDA ao ler uma notícia sobre si mesmo, ao abrir um jornal num supermercado, por culpa de uma analista de sangue que vendeu a informação à imprensa. Faleceu em 1992.

Depois da sua morte, os seus filhos emitiram um comunicado do pai: “Aprendi mais sobre amor, altruísmo e compreensão humana através das pessoas que conheci nesta grande aventura no mundo da SIDA, do que no mundo impiedoso e competitivo no qual sempre vivi e trabalhei.”

A sua viúva, Berry Berenson, morreu no voo 11 da American Airlines durante os ataques do 11 de setembro.

Durante a sua longa carreira, Anthony Perkins interpretou personagens perturbadas ou no limite da sanidade. Desde ‘Josef K.’ na adaptação de O Processo de Kafka levada ao ecrã por Orson Welles em 1962, ao padre tresloucado de As Noites de China Blue (1984). Num duelo improvável, encarnou um neurocirurgião maquiavélico perante um amnésico (Charles Bronson) em Someone Behind the Door (1971). Naquela que é talvez a melhor adaptação de Os Miseráveis (1978), encarnou genialmente o complexo vilão ‘Javert’. Anthony Perkins é um dos casos mais terríveis de negligência no que toca a prémios. Ganhou meia dúzia. O snobismo da Academia não deixava (nem deixa) que atores de filmes de terror sejam nomeados, mas permite que o sejam em musicais. Um dos maiores “crimes” da Academia foi não ter dado o Óscar a Perkins por Psycho. Nem nomeado foi. Ao lembrarmo-nos que atores muitíssimo inferiores ganharam mais do que um Óscar, ocorre-nos a frase de Mark Twain, “mais vale merecer honras e não as receber, do que as receber e não as merecer”.

“Preciso que me digam que sou bom porque me lembro de muitos argumentos que o contrariam. Sinto-me absolutamente arrasado pela minha falta de qualificações. Há muitos atores mais jovens e bem-parecidos que trabalharam muito mais do que eu, mas não tiveram nenhuma das hipóteses que eu tive. Não fui talhado para ser uma estrela. Sou demasiado sensível. Não tenho confiança nem interesse no dinheiro. Não sou bonito e tenho problemas de visão. Não tenho opiniões.”

“A minha persona mudou nos anos 60 com Psycho”, refletiu Anthony Perkins. Durante anos, depois deste sucesso, o ator sempre se recusou a falar sobre o personagem, já que era tão associado a ele. No entanto, mais tarde admitiu, serenamente: “Teria aceite o papel, mesmo sabendo que me perseguiria para sempre.”

David Furtado

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7 Comments Add yours

  1. André diz:

    Eu adoro o Psycho e a atuaçao do Anthony Perkins, mas para alem desse filme, so o vi no Murder on the Orient Express…

    1. Também eu. Ele ficou muito conotado com esse papel. Mas tem outros fantásticos. Alguns deles, sugiro no texto, se quiser ver algum…

  2. M. T. C. diz:

    Gostei muito do artigo, sobretudo depois de “rever” Psycho. Compreende-se melhor “Norman Bates” e o próprio Anthony Perkins, actor perfeito para representar um papel dificílimo, injustiçado pela Academia, mas não pelo público. Ganhou muitos “óscares” dos espectadores ao longo do tempo!

  3. ismael diz:

    Parabéns pelo post.Perkins era meu ator favorito.Apenas uma informação:Não foi com Victoria Principal que ele teve sua primeira relação sexual, muito antes disso ele já se relacionou com mulheres.

    1. Obrigado, Ismael. E agradeço também a correção. De facto, Anthony Perkins perdeu a virgindade (no que toca ao sexo oposto, entenda-se) com a atriz Cynthia Rogers, no Natal de 1951, aos 19 anos, num apartamento do Upper East Side em Nova Iorque. Isto soube-se porque Rogers se gabou do facto.

  4. Karen Veronica diz:

    Gostei muito da matéria, esse ator é perfeito um grande talento meu ator preferido, é uma pena não tê-lo mas entre nós. Foi umas das melhores matérias que já vi falou de pontos importantes da carreira dele, parabéns!

    1. Obrigado, Karen. Também sempre o achei um grande talento. Uma amiga disse-me certa vez que o Psycho foi a melhor e a pior coisa que lhe aconteceu, e concordo. Ficou sempre conotado com esse (grande) papel quando tinha capacidade para muito mais. Um abraço!

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