The Miracle Worker: Milagres do Cinema

Há já algum tempo que não via um filme excecional, mas uma série negra foi finalmente quebrada com The Miracle Worker, (O Milagre de Helen Keller) de 1962. É o retrato verídico da batalha de Anne Sullivan contra a surdez e cegueira da pequena Helen Keller, condição que a isola do mundo e a impede de comunicar. Keller, cega e surda desde a infância devido a um caso grave de escarlatina, sente-se frustrada pela sua incapacidade, comportando-se de modo violento com frequência. Os pais contactam a Perkins School for the Blind, que lhes envia Anne Sullivan, uma antiga aluna, para tentar ensinar a criança.

Patty Duke e Anne Bancroft em O Milagre de Anne Sullivan (The Miracle Worker).
Patty Duke e Anne Bancroft em O Milagre de Anne Sullivan (The Miracle Worker).

Perante uma família que sempre mimou Helen e a considera um caso perdido, Sullivan não desiste de uma tarefa que qualquer pessoa julgaria impossível. Assim, ensina a Keller linguagem gestual, para que esta consiga apreender o mundo que a rodeia, identificando objetos e, por fim, sentimentos.

A realização de Arthur Penn, por vezes, quase se limita a registar as atuações de Anne Bancroft (Anne Sullivan) e Patty Duke (Helen Keller). Segundo a Time, é “provavelmente o mais comovente desempenho de um duo alguma vez gravado em celuloide”. De facto, quando assistia a algumas cenas, ocorreu-me que, se fosse professor de arte dramática, mostrava isto aos meus alunos. As duas atrizes atingem um nível de realismo incrível, chegando àquele raro patamar em que “não parece filme”.

Patty Duke Anne Bancroft The Miracle Worker 2

Patty Duke, com apenas 16 anos (a atriz mais jovem a ter ganho o Óscar até então), não nos faz duvidar um segundo que seja da cegueira e surdez da personagem. Mas Anne Bancroft (a ‘Mrs. Robinson’ de The Graduate), também mereceu o Óscar pelo seu trabalho excecional. Ambas as atrizes já tinham desempenhado os mesmos papéis na aclamada peça da Broadway, a partir da qual a obra foi adaptada.

Todo o filme é memorável e nem dei pelo passar do tempo. Uma das cenas, em que Sullivan tenta ensinar Keller a comer com um talher, demora nove minutos, sem qualquer diálogo. É uma verdadeira guerra, que deixa a sala de jantar bastante danificada e uma tour de force, uma lição na arte de representar. A expressão corporal das duas atrizes é quanto basta para exprimir, por um lado, a força de vontade de Sullivan e, por outro, a frustração e revolta de Helen por não entender o que a tutora lhe tenta transmitir, bem como a obstinação em viver no seu mundo fechado. Esta sequência exigiu três câmaras e demorou cinco dias a filmar.

Tal como refere um comentador na IMDB, se considerarmos os tremendos obstáculos de Helen Keller e o modo como Anne Sullivan os ajudou a superar, “estamos perante algo que supera a maioria das descobertas científicas, façanhas atléticas e militares”. Keller viria a demonstrar a sua inteligência mais tarde, chegando mesmo a escrever diversos livros. The Miracle Worker retrata o instante em que conheceu a sua professora e o ponto de viragem da sua vida. Capta também duas atrizes em estado de graça numa milagrosa transposição para o cinema de uma história verídica sobre o significado da comunicação, o poder do espírito humano e a verdadeira natureza da compaixão, sem recurso à lágrima fácil ou a sermões desnecessários, porque a ação vale mais do que palavras. E, no mundo de Keller, não havia palavras.

David Furtado
(8 de Abril de 2011)

(Ao recapitular os filmes que vi no ano passado e que me impressionaram, a lista é razoável. Dos que vi no cinema, não houve nenhum. Como, para mim, o cinema não é apenas um entretém, mas uma arte, não o vejo de uma forma sectária (só novidades ou realizadores da moda), encaro-o de forma global. Tanto me faz se um filme é de 2011 ou de há 50 anos, desde que seja um bom filme.)

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